Liberdades e Consequências
Ele a conheceu numa tarde quente em um encontro do moto clube. Barracas de camping, tendas e muita carne sendo assada, com toda sorte de máquinas sobre duas rodas, para encher os olhos de qualquer motoqueiro. O nível etílico há muito excedido em seus limites, de tal sorte que as palavras já não tinham medida e tudo era alegria e êxtase momentâneo, porém eterno enquanto estivesse durando dentro daquelas mentes que se declaravam livres. Era essa a sensação que ele buscava quando pensava em liberdade.
Ela estava lá no meio da grama, serpenteando uma dança ao som de Free Bird do Lynyrd Skynyrd. Jaqueta jeans do Hard Rock, saia godê, allstars marrons por cima de meias colegiais em vermelho e preto. Os cachos dos cabelos castanhos pendulando as maçãs de seu rosto, marcado por um batom provocante. "Que menina clichê", pensou, depois de sorver um gole da cerveja já meio quente. Pensou, e se apaixonou. Mas sequer compreendeu o que sentiu quando seus olhares se cruzaram, pois ele só conhecia a paixão por sua moto. E pela liberdade. Era casado com a liberdade e a respeitava em todos os seus aspectos. Por isso era livre para escolher, e escolheram um ao outro naquela tarde quente.
A vida então foi tensa, intensa e densa. Eram a própria matéria em fusão e colapso, um buraco negro de humanidades num cosmos de liberdades auto-permitidas. Ensinou-a a pilotar, comeram quilômetros de asfalto, se entorpeceram de substâncias erradas nas horas certas, e de momentos certos movidos pela química errada. A chama crepitava pulsante dentro do peito quando seus corações jovens se uniam. Eles devoraram o tempo quebrando limites e, contrariando a física vigente, quanto mais rápido iam, mais acelerado o tempo parecia correr, porque em certa manhã acordaram e notaram que aqueles tempos tinham ficado para trás.
As labaredas crepitantes do ímpeto da liberdade se tornaram brasas. Não tinham a mesma explosão e calor de antes, óbvio, mas ainda esquentavam e acolhiam agora uma paz de espírito, que era uma espécie de recompensa adquirida por não terem ficado pelo caminho. Se o sentimento era de paz, concluíam que a jornada havia valido a pena, apesar dos inumeráveis percalços, conflitos e regras quebradas. Mas esta não é uma história de aventuras de uma inconsequente época de ouro, é um conto de tranquilidade e de paz alcançada, até este momento. É uma história de agora, e de como um universo aparentemente nascido do acaso te puxa da sua bolha de serenidade e te diz "eu sou o mundo, e preciso de equilíbrio pelas consequências não quitadas".
Como de costume, ele bebericava seu Jack Daniel's vendo o noticiário, ou qualquer coisa que estivesse na tv. Só queria terminar o dia duro matando uma dose de uísque em sua velha poltrona vermelha. Mas o olhar dela, o olhar que brilhava e penetrava e queimava... aqueles olhos castanhos agora fitavam constantemente o vazio. Ele fingia não notar, pensava que se não perguntasse, o problema se consumiria por si só, se é que havia problema. A jornada não valera tanto a pena? A intensidade da vida não estava gentilmente guardada na memória? Ela não podia simplesmente sentar ao lado dele e escutar o silêncio da paz gratificante?
Não, ela não podia. Para ele, a chama da fogueira ir diminuindo e se converter em pequenas brasas era o curso normal de todas as coisas vivas, até restarem naturalmente apenas cinzas. Para ela, isso era inaceitável. Era apático e patético. Não há fogo que não possa ser reavivado, pensava. "Eu caminhei pelas chamas, voei em turbilhões de explosões e o calor do sol foi testemunha da minha composição ardente". Ela estava mutilada, pois sentia que sua essência havia sido extirpada. Olhou para ele, sereno, sentado na poltrona. Sentiu pena. Pena por não estar compartilhando de sua serenidade. Sentiu raiva, por ele ter se conformado. "Você me deu o que tinha a oferecer e eu aceitei de bom grado, mas quero minha essência de volta", pensou, fazendo reverberar pela vastidão da mente as palavras carregadas de novas incertezas.
Demorou um tempo para ele perceber que o silêncio gritava. Olhou para trás, para a penumbra de uma casa meio sem vida, porque a única vida ali, respirando agora uma solidão real, era a dele. Ela se fora, sem dúvida. Esteve tão absorto em seu torpor contemplativo de satisfação, que perdera a sintonia. Em outros tempos, sentiria a mais ínfima mudança de temperamento. Mas agora ela, que era parte de si próprio, saiu pela porta e ele nem notou. O coração bateu em descompasso, como uma fagulha sufocada entre as cinzas, querendo queimar mas jazendo sem oxigênio. De ímpeto, levantou e viu um pedaço de papel, com o caminho que estava trancado em suas recordações, e que não precisava mais se lembrar porque ele já havia recebido calor suficiente para uma vida: o endereço do sol.
O velho motor rosnava pelas ruas adornadas com a penumbra da noite sem lua, iluminada por postes moribundos. Criaturas da noite se esgueiravam pelas sombras dos becos, como se o chamassem de volta para aquele velho mundo. Sempre imaginou sua moto como um cavalo espectral cavalgando o céu noturno com cascos de fogo, e seu coração se acendia mais a cada batida, o torque cardíaco fazendo seu peito trepidar. Mas um chacoalhar de cabeça jogou um balde de razão gelada no peito que começava a se incendiar. Tinha que acha-la. Aqueles tempos se foram, colheram sua recompensa, por que ela não descansava com ele? Por que não aceitava que a vida tinha um curso, e que nenhuma chama é eterna? Até a mais vigorosa das estrelas está fadada a colapsar e ser uma sombra do que já fora, assombrada pela própria singularidade.
O endereço do sol. Seus arredores eram dominados por explosões solares de overdose e irrealidades. E ao contrário do que se espera, sua luz era escuridão. Ela estava no chão, inerte, cercada por viciados, andarilhos e notívagos dos mais variados, sedentos por compartilhar delírios e vicissitudes inconsequentes. Durante toda uma vida, ela se tornara metade da sua essência, lhe doeu o coração e pesou forte em sua mente vê-la no chão. Ela quis se incendiar novamente, mas ao invés disso, apagaram sua essência.
Eram apenas suas glândulas secretando cargas massivas de adrenalina, mas o que ele sentia era fogo. Seu coração era uma supernova e sua pele estava envolta em chamas abastecidas pela raiva. Ele acabara de perder meia vida, que jazia num chão imundo e indigno de tudo que haviam construído juntos. Não tinha nada a perder sem uma vida completa, por isso agarrou uma barra de ferro no chão do beco. A vida dá e cobra, porque o universo exige equilíbrio. Não é magia, nem destino, nem nada especial. É puro caos e acaso. Uma banheira cheia vai transbordar quando você entrar nela, até que o volume de água combinado com o seu corpo se estabilize e a água pare de escorrer. Meras engrenagens das quais não temos controle.
Tentou contar, viu que eram muitos. Os nós em seus dedos estavam brancos pela pressão que suas mãos faziam, agarrando a barra de ferro com a força do ódio e da revolta. Ele tinha uma vantagem: sabia que não iria sentir nada. "Eu vou morrer aqui, então farei com que tenha valido a pena". Eles se aproximavam, em um círculo de crueldade humana que se fechava a cada passo em torno dele. Sob suas cabeças, nuvens escuras, sem lua, sem estrela, sendo o fogo emanado pela vontade dele a única fonte de luz. Uma visão magistral, se houvesse alguém observando a cena de cima.
"Eu vou morrer aqui".
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